quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

ENERGIA PARA QUE? ...E PARA QUEM?

Existem várias maneiras de ver as mesmas coisas:
as diferentes visões são criações livres da mente humana.


A produção de energia, bem como de outros bens (industriais e insumos básicos) não é uma finalidade em si — Depende de um cem número de fatores — e a super-oferta de energia é apenas uma delas. Perdurou por largo período nas décadas de 60/70 como decorrência da abundância de potenciais hidroelétricos incrivelmente baratos do Sudeste quando a maioria dos países industrializados já havia esgotado seus potenciais e passou a utilizar petróleo como fonte primária.
A produção de energia se justifica quando permite a produção de outros bens úteis ou sua troca por outros, especialmente petróleo. O Brasil produziu veículos para o consumo de uma elite, antes de ter combustível para acioná-los.
Quando mais precisou de petróleo para ter matriz mais diversificada, a Petrobrás exerceu o monopólio do produto importado para consumo interno de derivados. Só atingiu a auto-suficiência quando já era uma empresa anciã de mais ½ século.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

OUTRAS FORMAS DE ENERGIA RENOVÁVEL

OUTRAS FORMAS DE ENERGIA RENOVÁVEL

Outras formas de energia renovável (nuclear, geotérmica) são fontes eficientes de produção de calor e não têm limitações físicas, mas o calor por elas produzido não pode ser utilizado diretamente sem passar pelo incipiente “processo termodinâmico” da turbina a vapor subseqüente. Todas as outras formas de energia alternativa esbarram de uma forma ou de outra, nas limitações de dois princípios básicos, por isso são mais dispendiosas, embora não tenham nenhum outro tipo de limitação.
A turbina de bulbo substitui com vantagem as volumosas turbinas Kaplan em usinas com altura de queda inferiores a 20 metros, que constitui a grande maioria dos potenciais disponíveis atualmente. Ambas são hélices lentas que diferem apenas pela disposição e número de unidades de cada usina, o que facilita a padronização. O que torna o seu emprego interessante é o fato de estar associado a um tipo particular de usina que praticamente não tem reservatório (fio d’água), cuja altura de queda foi limitada intencionalmente para reduzir o impacto ambiental dos grandes reservatórios em regiões de planície. Ao reduzir a altura o custo de capital da usina como um todo é automaticamente reduzido. Nestas usinas os equipamentos e vertedores constituem a quase totalidade do custo, de vez que barragem e reservatório são reduzidos ao mínimo. Considerando que são impraticáveis os reservatórios na região Amazônica, as turbinas de bulbo dominarão o contexto da maioria dos empreendimentos hidroelétricos daquela região.
Turbinas eólicas e turbina de bulbo de eixo horizontal se assemelham as turbinas Kaplan de eixo vertical no aspecto velocidade. Todas são hélices lentas, portanto sujeitas às mesmas limitações econômicas.
“A energia solar pode ser convertida em calor para o aquecimento da água ou pode ser convertida diretamente em eletricidade através das células solares (fotovoltaica). Ambas as conversões constituem fontes renováveis que não são limitadas fisicamente como a hidroeletricidade e a biomassa. Entre as opções em desenvolvimento, as células de silício amorfo são especialmente promissoras. Entretanto, ainda não existe tecnologia fotovoltaica para largo uso comercial. Tecnologias para outras fontes renováveis estão em andamento: energia eólica ou dos ventos; maré motriz; reversíveis, etc. Tecnologias menos ambiciosas para produção de energia ainda apresentam tremendos desafios econômicos”. (José Goldenberg)
Nos países industrializados, a queima direta de petróleo é a forma natural de evitar os elevados investimentos em energia nuclear, imprópria para fins de aquecimento. Nos países em desenvolvimento a utilização de termoelétrica a gás é a forma atual de evitar os custos ambientais e elevados investimentos em reservatórios de usinas hidroelétricas. Do ponto de vista econômico e ambiental a moderna turbina a gás é o análogo do aquecedor a gás que é um dispositivo muito mais eficaz do que chuveiros elétricos.
Termoelétrica a gás pode ser mais eficiente do que as hidroelétricas do Amazonas, tanto no aspecto econômico quanto ambiental, assim como o aquecedor a gás é mais eficiente do que o chuveiro elétrico em ambos os aspectos. Quando falamos em modernas termoelétricas a gás estamos nos referindo às turbinas velozes que acionam geradores de 2 ou 4 pólos, em freqüência de 60 hertz (ou mais!!!) e não às térmicas convencionais a vapor que utilizam caldeira, verdadeira “reminiscência arqueológica” do industrialismo.
Mas, argüirão os ambientalistas, como podem ter custo ambiental menor, se queimam combustível poluente, emissores de gás carbônico? A razão é simples: termoelétricas a gás não só requerem menor investimento como impactam menos o meio ambiente do que os grandes reservatórios das atuais usinas hidroelétricas da Amazônia. Se a energia elétrica fosse realmente barata como afirmam, estaríamos utilizando no Brasil os fogões elétricos mais cômodos e menos poluentes. Foi o mito da hidroeletricidade barata que levou os brasileiros à utilização dos anacrônicos chuveiros elétricos, concentradores de demanda, cujo custo só é pequeno para o consumidor final, não para o país como um todo. Assim como o fogão a gás é mais econômico do que o fogão elétrico, o aquecedor a gás deveria substituir o anacrônico chuveiro elétrico utilizado no Brasil, porque este requer o suprimento de energia por usinas hidroelétricas dispendiosas, cujos reservatórios são prejudiciais ao meio ambiente. O custo do aquecedor automático a gás é cerca de um quinto do melhor aquecedor solar, de forma que, mesmo gastando gás combustível, chega a ser mais eficaz do que este. As hidroelétricas da Amazônia só serão mais econômicas e ambientalmente mais corretas quando subutilizadas, em regime de baixo nível de aproveitamento, com limitação da altura da barragem condicionada a não inundar mais do que as enchentes naturais (low profile). Nestas condições, o custo é substancialmente reduzido por dispensar barragem e reservatório, como uma usina de fio d’água (78 U$ / Kwhora na usina de Girau).
— Será possível um ‘desenvolvimento sustentável, para todos os recursos naturais: hidroelétricas da Amazônia e exploração de petróleo, de maneira semelhante ao se que faz na Amazônia para o manejo sustentável dos recursos naturais da floresta?

PETRÓLEO E GAS

A NATUREZA LIMITADORA DOS PRINCÍPIOS
Com raras exceções, toda forma de energia, a ser utilizada em larga escala no mundo todo, ainda passará, de uma forma ou de outra, pela queima de algum combustível. As limitações ao emprego de outras fontes decorrem de princípios físicos que regem todo o processo de transformação de energia, os quais não podem ser violados sem aumento de custos, especialmente os ambientais. Nem mesmo a energia nuclear, cujo combustível é abundante, escapa das limitações de custo inerentes ao “processo termodinâmico” das térmicas convencionais que utilizam caldeiras a vapor.
Assim tambem a energia dos potenciais hidroelétricos está sujeita ao processo físico da transformação em ”regime de baixas velocidades” que encarece o custo de capital de barragem e equipamento, alem dos custos ambientais dos grandes reservatórios em região de florestas.
As hidroelétricas atuais são limitadas fisicamente pelo relevo, tanto do ponto de vista econômico como ambiental e as termonucleares são custosas devido ao processo de transformação (cerca de 3000 e 6000 US$/ kW respectivamente). São condições geográficas que determinam o fraco desempenho dos grandes potenciais da região amazônica, tanto do ponto de vista ambiental como econômico. Pequenos desníveis criados para geração de energia elétrica implicam em grandes reservatórios, dispendiosos e agressivos ao meio ambiente. Do ponto de vista econômico, a transformação se opera em regime de baixas velocidades, o que implica maior custo dos equipamentos, turbina e gerador e maiores custos de barragens e reservatórios.
O fator determinante do custo da energia é o “processo termodinâmico” e o “regime de velocidade” em que as transformações se processam. O primeiro rege a transformação da produção de calor e o segundo rege a produção da energia de acionamento. Vejamos como as diferentes formas de suprimento se comportam perante estes dois fatores:

NUCLEARES

USINAS NUCLEARES
A reação nuclear é conhecida há mais de um século, entretanto ainda não foi encontrado um meio eficiente de aproveitar a incrível energia contida no interior da matéria. Se todo o calor produzido pela reação nuclear pudesse ser utilizado diretamente no aquecimento — que constitui o maior componente do consumo dos países de clima frio — metade do petróleo hoje consumido no mundo todo deixaria de ser queimado. O maior beneficiário seria o próprio meio ambiente e o petróleo poderia ter destinação mais útil para a produção de bens que se tornarão escassos no futuro.
O reator nuclear reúne tecnologia avançada de combustível com tecnologia ultrapassada de transformação. Por questão de segurança, todo o calor produzido pela reação nuclear tem de passar por sucessivas trocas de calor para finalmente produzir energia elétrica como uma usina térmica convencional que utiliza caldeira a vapor d’água. Não tem limitação física, pois o combustível — utilizado em pequena quantidade — constitui uma fonte praticamente inesgotável de energia. Mas, é o “processo termodinâmico” da transformação subseqüente à reação nuclear que torna o custo de capital do conjunto maior ainda do que o custo operacional das térmicas a vapor convencional.

POTENCIAIS HIDROELÉTRICOS

Sem dúvida os potenciais hidroelétricos constituem a melhor fonte de energia para todos os fins, mas em todo o mundo os recursos potenciais são extremamente limitados devido à quase total utilização. Passaram pelo processo de seleção natural e hoje constituem raridade, encontradas somente em países pobres. No Brasil os últimos potenciais se encontram na planície Amazônica, onde os potenciais são relativamente abundantes, mas de baixa qualidade devido a pouca eficácia do campo gravitacional.
O combustível fóssil é o responsável por 92% do consumo dos países industrializados. Em menor escala os países em desenvolvimento dependem do petróleo e carvão mineral no transporte e produção de alimentos em cerca de 50%.
Como fomos chegar a essa situação de extrema dependência de uma fonte única de energia? No caso do Brasil a dependência dos potenciais hidráulicos — como única fonte de suprimento de energia por longo período — pode levar a muitos inconvenientes, devido às restrições econômicas e ambientais da exploração dos recursos da Amazônia.
Não é nenhuma fatalidade histórica essa dependência porque estes fatos já aconteceram antes. Em pouco mais do que 50 anos — depois da descoberta da eletricidade — quase todos os potenciais hidroelétricos no mundo todo foram utilizados, em razão da sua evidente economicidade. No Brasil não foi diferente. Depois de selecionados os melhores potenciais as possibilidades são remotas. Os potenciais da Bacia Amazônica, vistos como promissores, devem ser analisados com cautela, pois são potenciais de baixas quedas e grandes vazões, situadas em planície de baixa altitude, ambientalmente impróprios e com os altos custos inerentes, em tudo semelhante àqueles de Jupiá e jusante, no Rio Paraná.
E agora, pegos de surpresa, chegamos à condição de objeto de profecias ameaçadoras sobre “o fim do petróleo”, “o fim da água”, “o fim da terra”, “o fim da história”, e culpados pelo pecado original de sujeitos causadores destas catástrofes. Não há nenhuma

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

ANTEVENDO O FIM DOS POTENCIAIS HIDROÉTRICOS

HUGO SIQUEIRA


Florestas podem ser reconstituídas pelo plantio de novas árvores. Mas, e o potencial hidroelétrico, em que sentido é renovável? A classificação “renovável” atribuída a energia potencial hidroelétrica, em contraposição ao combustível como recurso limitado, não leva em conta o fato de que são grandezas distintas. Uma, o petróleo, é um estoque de energia, cujo montante é desconhecido, enquanto a energia potencial é uma quota atual de energia, reutilizável, mas cujo montante, bem determinado, se esgota rapidamente com a utilização dos saltos potenciais disponíveis. Não é acumulável e nem comporta acréscimos, o que torna a energia potencial um recurso muito mais limitado que o combustível. A energia de potenciais hidroelétricos foi tão barata e versátil, no princípio, que sobrepujou qualquer outra forma de produção de energia (inclusive as térmicas, no aspecto custo de capital), a ponto de atingir sua utilização plena nos países industrializados.
Não leva em conta tambem o fato de o combustível poder ser plantado, tambem uma forma de energia que pode ser “renovada” pela ação do homem em quantidade expressiva, limitada apenas à quantidade de terra disponível. Ao cultivar plantas energéticas como cana e florestas artificiais o homem exerce um efeito benéfico sobre o meio ambiente, repondo, de certa forma, aquilo que foi subtraído pela sua ação predatória do passado. Isto mostra que o combustível é uma fonte infinitamente mais abundante que a energia potencial disponível e a maior evidência desse fato é o preço atual dos combustíveis, tanto petróleo como combustível alternativo.
Outro fator não considerado nas análises de alternativas se relaciona ao custo ambiental e econômico propriamente dito. Não leva em conta, por exemplo, que o combustível cultivado é muito menos agressivo ao meio ambiente do que reservatórios de hidroelétricas de planície, pela garantia antecipada de saldo negativo de emissão de gases do efeito estufa. No aspecto econômico a vantagem da utilização do combustível em termoelétricas é muito mais significativa em razão do “regime de velocidade” em que a transformação se processa. Apesar de menos eficiente no aspecto termodinâmico, esta desvantagem é largamente compensada pela transformação em rotação padrão de 60 Hertz.
A importância do combustível, como fonte de energia, decorre do fato de ser transportável, de um lugar para outro, na forma de mercadoria, que pode ser cotada em bolsa, tal como o petróleo, uma comodity como outra qualquer. O combustível alternativo apresenta ainda a vantagem sobre outras formas de energia: o álcool requer o cultivo de plantas energéticas mais eficientes do que as naturais, cujo custo de produção, pronto para consumo (etanol), tende a ser inferior ao do petróleo bruto alem de menos poluente. É tambem um depósito de energia potencial, disponível a qualquer instante, independente do clima;
A produção de hidrogênio pode ser descentralizada, pelo uso da eletrólise junto a fontes hidroelétricas, sem emprego imediato, da mesma forma que a produção de comodities intensivas em energia elétrica (alumínio, estanho e aço). Ambas são formas indiretas de armazenamento de energia em forma de produto acabado que eliminam o problema do transporte de energia (elétrica) e matéria prima (minério bruto).
Constatamos que o combustível será ainda a forma de energia mais largamente utilizada no mundo todo, depois de os países industrializados terem utilizado completamente seus potenciais hidroelétricos. Continuarão na condição de grandes consumidores (70%), ainda que seu consumo per cápita venha decaindo, a despeito do crescimento econômico. Países industrializados continuarão aprimorando as alternativas renováveis de energia conhecida (eólica, de marés, de ondas, fotovoltaica, etc.) e desenvolvendo novas que é o seu papel como detentores de capital. Por incrível que pareça os maiores beneficiários de suas descobertas serão aqueles que ainda contam com fontes renováveis e baratas. Um bom exemplo é o desenvolvimento de carros elétricos que beneficiam muito mais os países que tenham energia hidroelétrica substituta dos combustíveis poluentes eliminados e produtora dos componentes de baterias (Lítio). O mesmo acontece com os carros a hidrogênio e células de combustível, pela facilidade da produção de hidrogênio por fontes renováveis e baratas. Ao contrário do que muitos pensam, o petróleo continuará abundante e a maior garantia de que os preços continuem estáveis é a expansão de combustíveis alternativos e o uso de alternativas renováveis que estão sendo continuamente desenvolvidas.
Graças aos abundantes recursos naturais os países em desenvolvimento como o Brasil, poderão se tornar virtuais exportadores indiretos de energia, seja pelos insumos produtores (álcool), seja pelos insumos básicos produzidos (lingotes de alumínio, estanho, ferro). O país tem em abundância os dois fatores: minérios eletro intensivos e energia hidroelétrica barata e limpa. Pode exportar minérios com energia elétrica incorporada ou exportar álcool para aquecimento e acionamento de veículos, ambos gastadores de petróleo. Estes são argumentos fortes que justificam a retirada dos subsídios. Se, de fato a globalização beneficia os países industrializados, deve contemplar tambem os países em desenvolvimento, eliminando o transporte inútil de matéria prima em favor da proteção do meio ambiente que é tambem um objetivo global.

A FORÇA DOS PRINCÍPIOS

HUGO SIQUEIRA

O conceito chave da eficiência está relacionado com a velocidade: por serem velozes são econômicas, tal qual a moderna turbina de avião. Aos atuais preços do petróleo de 50 Centavos de Dólar o litro e taxa de juros de 12% ao ano, praticado pelo mercado, já são possíveis térmicas mais baratas, em todo o sentido, em relação às volumosas e lentas usinas hidroelétricas da Amazônia.
Um sistema elétrico não pode permanecer indefinidamente sem graves inconvenientes.
Como, fatalmente toda energia do futuro passará pela queima de algum combustível, este fato não representa desvantagem para os países em desenvolvimento, ao contrário dos países industrializados que recorrerão à energia nuclear, mais dispendiosa, para obterem energia de aquecimento. Quando houver predominância de térmicas nos países em desenvolvimento, hidroelétricas poderão afinal ficar livres do “critério de risco”, utilizado pelos planejadores na década de 50: as novas usinas hidroelétricas da Amazônia não precisarão estar condicionadas ao atendimento da carga em qualquer circunstância, como antes, quando o sistema foi exclusivamente hidroelétrico. Estas, bem como as atuais hidroelétricas, não serão mais responsáveis pelo atendimento das solicitações instantâneas da carga, que passará a ser suprida ocasionalmente pelas termoelétricas (de custo fixo mais baixo) que serão maioria. Tambem funcionarão a plena potência em todas as condições de vazão, a qual não precisa ser garantida. A “energia garantida” não precisará ser aquela do “Período Crítico”, mas a máxima que as hidroelétricas puderem produzir, em qualquer condição de vazão, limitada apenas à potência instalada de cada usina. Mesmo que não exista carga, esta poderá ser criada artificialmente para a produção sazonal, a baixo custo, de comodities metálicas de alto valor agregado, intensivas em energia elétrica (eletrólise a quente) ou mesmo ser armazenada em baterias para acionamento de carros elétricos ou na produção de hidrogênio e ar comprimido para acionamento de automóveis.
Termoelétricas permitirão reparar, de certa forma, o erro de perpetuar um sistema baseado em fonte única. As hidroelétricas atuais ficariam liberadas do “critério de risco” nos períodos prolongados de seca. É mais razoável economicamente correr risco com termoelétricas nestes períodos por terem custo de capital menor e, portanto, mais aptas para permanecerem ociosas em períodos chuvosos.

CONCLUSÕES:

HUGO SIQUEIRA
O baixo nível de atividade econômica, prevista com a recessão no mundo todo, privilegia as térmicas como solução provisória, que adia investimentos altos em hidroelétricas, no presente, aproveitando as boas condições de preço dos combustíveis atuais. Alem disso os maiores gastos de combustível ocorrerão a prazo, enquanto os custos de capital com hidroelétrica ocorrem no ato da decisão, portanto irreversíveis.
A fase dos grandes empreendimentos hidroelétricos está chegando ao fim em todo o mundo. Depois de utilizados os potenciais de baixo custo o ambiente se assemelha a um final de festa. A nova fase do suprimento de energia será, inelutavelmente, de origem térmica (convencional ou termonuclear). A pretensa abundância de potenciais na Bacia Amazônica não deve levar à repetição de projetos que hoje se mostram inviáveis pelo alto custo do dinheiro (taxa de juros). Esta é a imagem atual do Sistema Elétrico Brasileiro:
--Suprir energia através de termoelétricas a combustíveis líquidos e gasosos, provenientes da cana e madeira é a alternativa promissora do momento, especialmente nas condições atuais de taxas de juros perto de 20% ao ano (BNDES), praticadas pelo mercado, e preços do petróleo na faixa de 50 centavos de dólar o litro, equivalente à metade do preço por ocasião do primeiro choque, se considerada inflação do dólar (2% ao ano).
--Aproveitar o programa do álcool, que custou tanto sacrifício, para que o setor sucroalcooleiro não seja penalizado é a providência mais urgente, especialmente depois dos altos investimentos já realizados. Mas, sem dúvida alguma, a grande economia no suprimento de energia vai provir da “mudança de rumo” no que respeita à composição das fontes de suprimento de energia, ou seja, a utilização das termoelétricas, no sentido de potencializar as atuais fontes, de origem quase que exclusivamente hidroelétrica, e dos novos vetores energéticos: combustíveis líquidos e gasosos que farão funcionar as novas termoelétricas. Estes “novos rumos” fazem parte das estratégias de uso-final da energia, conforme preconizado pelo relatório premiado de José Goldenberg: produção sob novas formas (térmicas) para uso-final da energia.
Em última análise, o suprimento de energia por termoelétricas a combustível (líquido ou mesmo gás de petróleo) é uma alternativa que acompanha o desenvolvimento de tecnologias modernas no sentido de maiores velocidades em todos os setores. Todo esforço do empreendimento humano tem sido no sentido do aumento constante da velocidade, que constitui a tendência marcante do mundo moderno. Esta tendência é evidenciada pelas modernas turbinas dos jatos supersônicos, da incrível velocidade de escape dos foguetes, dos aparelhos de corte de cerâmica, das atuais brocas de dentista, dos automóveis e carros de corrida e, sobretudo, pelo aumento crescente da velocidade da informação. Assim como o mundo todo se desenvolveu graças ao aumento da velocidade da informação, o desenvolvimento correlato do setor secundário ocorre pelo crescimento da velocidade industrial das máquinas e conseqüente aumento da velocidade e rotação dos aparelhos produtores e consumidores de energia.
Se já existem turbinas velozes para avião, alimentadas por combustível líquido, por que não podem ser utilizadas para acionar geradores baratos em frequência de 60 Hertz ou maiores? Termoelétricas a combustíveis líquidos custam apenas 500 US$/kW instalado (dólares de 1960) e podem vir a custar menos com as pesquisas. Alem disso podem ser descentralizadas, não requerendo custosas linhas de transmissão nem reservatórios.
Algumas sugestões:
• O consumo de energia vai ser de origem térmica: 64 % nos Países industrializados de clima frio e 15% nos países em desenvolvimento. Não há alternativa -- como garantia antecipada de proteção ao meio ambiente -- senão o cultivo de plantas energéticas para a produção de combustível.
• Termonucleares são caras (US$8000/ kW instalado), por serem termodinamicamente inadequadas para todos os fins, de aquecimento e acionamento (94% do consumo mundial).
• Termoelétricas acionadas por combustível líquido são mais econômicas e menos agressivas do que hidroelétricas da Amazônia. São velozes e consomem combustível já cultivado.
• Usinas eólicas e de marés são visivelmente lentas para serem econômicas. Não é sensato que sejam utilizadas para fim de aquecimento. Pode ser utilizada em lugares remotos e liberar combustível de usinas térmicas.
• Se todos precisam queimar combustíveis, nada contra, desde que assumam o compromisso antecipado de cultivar plantas. Esta é uma proposta mais racional do que ameaçar países consumidores do combustível, que, de antemão sabemos que vão consumir.
• Não há nada de errado em utilizar combustível barato para fins de aquecimento O irracional seria utilizar energia nuclear e alternativa mais cara inadequadamente. Protelar alternativas caríssimas é uma atitude coerente dos países industrializados.
• Não há nada de errado em utilizar combustível barato em termoelétricas para fins de acionamento. O errado é utilizar energia hidroelétrica mais cara e agressiva ao meio ambiente. Protelar alternativas caras e agressivas é uma atitude coerente dos países em desenvolvimento.
• Se o consumo de combustível é inevitável, a solução racional que contempla custos ambientais e econômicos é a produção do combustível pelo cultivo antecipado de plantas energéticas nos mesmos níveis de custo do petróleo.
• Ironicamente, o aquecimento solar direto, que é, sem dúvida, a melhor forma de produzir calor, não está plenamente disponível para os que dele mais precisam: os países de clima frio. Nos países tropicais, é desnecessário.
• Explorar petróleo como matéria prima de exportação constitui um procedimento pouco inteligente, posto que, o petróleo é uma comodity como outra qualquer, cujo preço, 50 centavos de dólar o litro, é pouco superior ao da soja pronta para o consumo. Exportar petróleo bruto é como exportar comodities ou minérios, inclusive o etanol.
• Não faz sentido utilizar células de combustível para fins de aquecimento. Acresce que não existe tecnologia fotovoltaica para largo uso comercial.
• Quanto mais baixo o preço do combustível, maior o uso, obviamente, como fonte de aquecimento em substituição às hidroelétricas, termonucleares, turbinas eólicas e células de combustível. Mas agora, nem o preço baixo está estimulando seu uso.
• Apesar do uso intenso o estoque de petróleo continua uma incógnita. Petróleo e energia potencial (hidroelétrica) são grandezas distintas. Ao contrário do petróleo que constitui um estoque ancestral, toda energia potencial não utilizada do passado se perdeu definitivamente.
• Os recursos de biomassa são limitados pelas restrições ao uso da terra impostas pela baixa eficiência da fotossíntese. Em todas as florestas dos países em desenvolvimento o índice total de produção não chega a quatro TW (Terawat). Mas, é claro que a floresta natural não será utilizada como fonte de aquecimento. Pelo contrário, o cultivo de florestas artificiais é uma garantia da sua preservação e reposição daquilo que foi utilizado. Esse é o tributo a ser pago por países consumidores.
• O capital vai ser o fator mais escasso nos próximos anos de recessão e o combustível será o fator mais abundante. Não faz sentido construir hidroelétricas de custo elevado em todos os sentidos: ambiental e econômico.
• A experiência dos países industrializados está mostrando claramente o que vai acontecer no futuro, com a desmontagem de suas indústrias padronizadas, sincronizadas, maximizadas e centralizadas, característica do industrialismo que estão abandonando. Para não incorrer no erro de solução que hoje se mostra inadequado, os países em desenvolvimento devem tambem sacrificar seus “dinossauros”, que foram úteis enquanto duraram, sejam hidroelétricas volumosas ou o decantado sistema interligado, sincronizado e centralizado.
• Cerca de 80% da energia consumida no mundo todo proveem da queima de combustível e não há nenhuma evidência de que este fato possa ser modificado nas próximas décadas. É mais provável que o consumo de combustível para fim energético cresça do que o contrário. Não há razão objetiva que justifique gastar mais quando se pode gastar menos. Isso violaria o senso comum de racionalidade do país consumidor, industrializado ou não.
• A questão ambiental não é um fenômeno objetivo porque os custos da proteção ambiental não recaem igualmente sobre todos os países. Muitos países em desenvolvimento, a exemplo da China, Bulgária e da Índia, se permitem conviver com ambientes altamente poluídos, como contrapartida de melhores condições de vida. Não obstante esta consideração cabe demonstrar que a solução termoelétrica é tambem menos agressiva, e mais barata do que as alternativas termonucleares, eólicas, maremotriz e células solares fotovoltaicas.

Diferentes visões:

Lago de Furnas

Lago de Furnas
Pesqueiro do Areado