quinta-feira, 17 de junho de 2010

FATOS CURIOSOS SOBRE CONSUMO DE ENERGIA

NOTAS CURIOSAS
O motor de carros se comporta, termodinamicamente como miniusinas térmicas ambulantes, autônomas como a velhas locomotivas a lenha, que carrega seu próprio combustível e transforma diretamente a energia contida no combustível em energia mecânica de acionamento do veículo. Daí seu prestígio pela autonomia e potência para atender solicitações inesperadas de demanda. São ineficientes pelo processo, mas muito eficientes pelo “regime de velocidade”, acompanhando as inovações de modernas técnicas de fabricação (6000 RPM).

PS: Você toma um banho de ½ hora num chuveiro de 6000 Watts consumindo 3 Kwhora e paga uma conta de 0.45 x 3 ou 1.35 R$/banho.
Se o chuveiro fosse a gás (gasolina) pagaria 0.21 x 3 ou 0.63 R$/banho
Nota: um aparelho de chuveiro a gás custa 1/5 do mesmo chuveiro a aquecedor solar. Foi o mito da hidroeletricidade barata que perpetuou o uso dos anacrônicos chuveiros elétricos. Qual a razão de tanto encargo sobre energia que é fundamental para produção de bens básicos?

PS: Projetei um grupo gerador de reserva para um hospital e fiz a seguinte recomendação: “ligar o gerador a diesel e deixar a Cemig na reserva”. Sai muito mais em conta. Empresas na informalidade ganhariam com geradores próprios.

ALTERNATIVA BRASILEIRAS DE CARROS ELÉTRICOS

ALTERNATIVAS PROMISSORAS
O Brasil é um dos mais bem aparelhados países para fornecer energia barata, não só para acionamento de veículos elétricos como para a fabricação dos elementos necessários como baterias leves de lítio e alumínio para tornar menos pesadas as carrocerias dos carros elétricos. Para essa finalidade poderá contar com a eletrólise da corrente elétrica produzida por usinas hidroelétricas extremamente baratas como as que são construídas ao preço de 8 centavos/Kwhora no Rio Madeira e Xingu. Tem amplas margens de reduzir tarifas excessivas ou torná-las quase gratuita no processo de carga noturno.
Mas, dificilmente poderá tomar o lugar da indústria estruturada há mais de um século. Por menor que seja o custo de suprimento de energia elétrica a veículos 100% elétricos e mesmo que seja gratuito, não existe condição objetiva de concretizar o suprimento através da tomada do consumidor porque a estrutura da rede domiciliar não comporta recarga na escala requerida pelo conjunto bateria/motor elétrico. Já imaginou o tamanho da conta de luz? Por outro lado, postos de serviços localizados em prédios de estacionamento teriam oportunidade de ampliação dos serviços de troca de baterias certificadas e carregamento. Nem a estrutura de serviço existente dos postos de combustível teria área suficiente para suportar carga de bateria com duração 5 a 6 horas diárias em locais de alto custo imobiliário. Já imaginou a dificuldade da carga em postos de gasolina, por horas seguidas?

Tudo vai depender dos mecanismos que regulam a qualidade do ar e incentivos para redução de poluentes requeridos pela população. Por exemplo, permissão para circulação livre em áreas de lazer devido ao baixo risco e liberação do rodízio imposto a outros veículos.. Isenção de IPI, IPVA e ICM, tanto no veículo em si como na fabricação dos componentes e tarifas de energia elétrica.. Mas, se forem construídos para ficarem parados, como os demais a combustível, perdem sua principal função de circulação na região central das grandes cidades. O grande problema dos automóveis nas grandes cidades não está na poluição por eles produzida, pois a maioria deles está parada nos estacionamentos, nas garagens das residências ou mesmo no trânsito por absoluta falta de usuários. O grande problema dos automóveis está na área por eles ocupada, requerendo dos poderes públicos cada vez mais vias para circularem. Não é, tipicamente, um meio de transporte, mas um brinquedo de luxo, como um quadro de arte pendurado na parede ou título nobiliárquico. Existem meios mais racionais de transportar pessoas.
Se continuar escalada de fabricação de veículos como desejam os países em desenvolvimento não demora as vias das cidades estarão, de tal forma entupidas de veículos, que o automóvel se tornará inútil para circulação, como vem mostrando a realidade das pequenas cidades. É provável que o automóvel se transforme num “totem”, bezerro de ouro consumidor das energias dos poderes públicos dos países em desenvolvimento do futuro. Se utilizarem o combustível para acionar termoelétrica perdem dinheiro e ainda continuam emitindo. Nos países industrializados o número de veículos está saturado.
“Até no automóvel, que parecia um grande consumidor, o consumo de combustíveis não cresce por falta de usuários. Milhões de carros são fabricados todos os anos para ficarem parados no trânsito, nos estacionamentos e garagens, como objeto ornamental. Com mais de um veículo por habitante (2,5 nos Estados Unidos), é impossível ao usuário ocupar mais de um ao mesmo tempo (só se tivesse o dom da ubiqüidade), o consumo depende das viagens. Alem da necessidade de locomoção de pessoas ser naturalmente reduzida numa economia de serviços, acresce o fato de estar acontecendo mudanças de hábito para carros mais econômicos. O transporte pesado tambem perde importância numa economia de bens desmaterializados. Ademais, a distribuição de mercadorias pode contar com a eficiente estrutura herdada do industrialismo.
HUGO SIQUEIRA, Cidade do Cabo Verde MG em 16/06/2010
CUSTOS PARA O CONSUMIDOR
Sejam os dados seguintes:
Custo da gasolina no posto 2.50 R$/litro
Custo da energia na concessionária 0.45 R$/Kwhora
Poder calorífico da gasolina 12 Kwhora/litro (expresso na unidade Kwhora/litro)
Rendimento do motor a combustão 25%
Rendimento do conjunto bateria/motor 75%

A queima direta de 1 litro de gasolina em um aparelho de aquecimento doméstico produz 12 Kwhora de energia sob forma de calor ao custo 2.50 Reais/litro.
Custo da energia de aquecimento (2.50/12) 0.21 R$/Kwhora

— O motor de combustão interna converte a energia resultante da queima da gasolina diretamente em energia mecânica no eixo do veículo sem passar pela geração de energia elétrica. O custo é 4 vezes maior porque o rendimento é apenas 1/4.
Custo do Kwhora mecânico no eixo do motor 0.21 x 4 = 0.84 R$/Kwhora

— O conjunto bateria/motor elétrico transforma energia elétrica de bateria previamente carregada em energia mecânica no eixo do motor de acionamento da roda do veículo. O custo é 4/3 maior porque o rendimento é 3/4.
Custo do Kwhora mecânico no eixo do motor 0.45 x 4/3 = 0.60 R$/Kwhora
Uma economia de cerca de 30% que poderia muito maior se a energia não fosse tão tributada.
Observação:
Nos dois processos o Professor Sauer usa insumos diferentes, tal como se apresentam ao consumidor. No 1º usa o preço da gasolina na bomba e no 2º o preço da tarifa na conta de luz. Acontece que a energia é muito mais tributada do que a gasolina. Se tivesse usado o custo real da energia produzida (sem impostos) a economia seria muito maior. Por exemplo, se tivesse usado o custo real da energia produzida nas últimas usinas licitadas do Rio Madeira e Belo Monte em torno de 15 centavos incluindo transmissão e distribuição, o custo seria:
Custo do Kwhora mecânico no eixo do motor 0.15 x 4/3 = 0.20 R$/Kwhora
E a economia real seria de 75% com exclusão de impostos.
Custa acreditar que o país que produz a energia mais barata do mundo tenha a tarifa de energia mais cara do mundo. Para se ter uma idéia basta observar que os lances vencedores das licitações do Rio Madeira e Belo Monte não passaram de 8 centavos o Kwhora (80 R$/Mwhora), cuja energia chega a nossas residências ao preço médio de 45 centavos/Kwhora, quase seis vezes maior. (58 centavos na Cemig)
Na verdade, o custo poderia ser muito menor e possivelmente gratuito como foi acima mencionado: “alem da economia de combustível a recarga da bateria ocorre fora dos picos de demanda ou durante a noite — ocasião em que, ordinariamente, as hidroelétricas estão paradas, possivelmente vertendo água — o que torna o custo da geração praticamente nulo”.
Ou segundo cálculo do Professor Sauer:
No 1º processo o consumidor compra 1 litro de gasolina por 2.50 R$ e usa apenas 1/4 do conteúdo energético para gerar 3 Kwhora mecânico no eixo do motor de combustão de baixo rendimento
No 2º processo o consumidor compra 4 Kwhora de energia por 0.60 R$ e usa 3/4 da energia para gerar os mesmos 3 Kwhora no eixo de um motor de maior rendimento (75%).
Custo do Kwhora no 1º processo 2.50/3 0.83 R$/Kwhora
Custo do Kwhora no 2º processo 0.60/3 0.20 R$/Kwhora
Uma economia de 75% com os impostos excluídos.

CARROS ELÉTRICOS?

VANTAGENS ECONÔMICAS do carro elétrico:
Nos aspectos técnico-econômicos o conjunto bateria/motor elétrico é melhor do que o motor a combustão interna: Custo, consumo, robustez, versatilidade, etc.
— Apesar dos avanços tecnológicos, a concepção de mais de cem anos do motor a combustão interna requer — alem da lubrificação interna — câmbio para tornar o rendimento melhor em altas velocidades, alem do radiador para dissipar calor em baixas velocidades, o que torna o custo de capital muito maior.
— O motor elétrico de corrente contínua já é especialmente projetado para ter alto conjugado de partida em baixas rotações de forma a ter potência constante, independente do trajeto. Nos aclives acentuados dispensa radiadores de refrigeração e nas descidas o freio eletromagnético permite a recuperação da energia potencial do veículo, devolvendo carga ao conjunto de baterias.
— O motor a combustão envolve atenção contínua para o abastecimento de combustível, água do radiador e troca periódica de óleo, praticamente inexistente no motor elétrico de custo muito inferior. Entretanto, pode ser compensada com a incômoda carga diária da bateria do carro elétrico.
—Em relação ao veículo 100 % elétrico o motor a explosão requer uma série de dispositivos, tais como embreagem, câmbio, radiador e diferencial, dínamo e motor de arranque que tornam o custo de combustível e de capital mais elevado..
— Alem da economia de combustível a recarga da bateria ocorre fora dos picos de demanda ou durante a noite — ocasião em que, ordinariamente, as hidroelétricas estão paradas, possivelmente vertendo água — o que torna o custo da geração praticamente nulo. A energia elétrica armazenada em baterias para diversos usos não é nada desprezível, se considerarmos a grande quantidade de veículos no futuro.

CADEIA DE CONVERSÃO

Em termos de eficiência da cadeia de conversão energética, o veículo elétrico possui grande vantagem quando computados os rendimentos nos processos (Ildo Sauer, folha de 6/6):
— Economia de energia devido ao processo termodinâmico da transformação (2º princípio), muito mais eficiente na cadeia de conversão bateria/motor elétrico (75 %) do que no motor de combustão interna (25 %). Para produzir a mesma energia mecânica no eixo o motor a explosão consome cerca de três vezes mais energia do que o motor elétrico.

Mas a eficiência energética por si só não basta porque a transformação bateria/motor elétrico é apenas parte do processo que tem a energia elétrica como insumo. O que realmente conta é a eficiência econômica de todo o processo em termos de R$/Kwhora produzido no eixo do veículo.
Hugo de cabo Verde
PS: Projetei um grupo gerador de reserva para um hospital e fiz a seguinte recomendação: “ligar o gerador a diesel e deixar a Cemig na reserva”. Sai muito mais em conta. Empresas na informalidade ganhariam com geradores próprios.

QUIMERA DOS CARROS ELÉTRICOS

CARROS ELETRICOS
Uma quimera a ser vendida como “novidade tecnológica” aos países em desenvolvimento.

Criado inicialmente para reduzir a dependência do petróleo o etanol brasileiro acabou contribuindo para a redução da contaminação por chumbo e da emissão de gás carbônico, ambas de âmbito global.
A poluição ambiental — que foi problema de países industrializados — atualmente ocorre com maior intensidade nos países em desenvolvimento cujas cidades são as que mais crescem. Com o crescimento desordenado das grandes cidades a qualidade do ar vem se deteriorando e a preocupação com as emissões de gazes em âmbito local abre possibilidades concretas para o veículo elétrico.

A substituição de parte da frota por carros elétricos nas grandes cidades transfere a emissão para locais distantes onde se situam as novas fontes geradoras, o que representa alguma vantagem, mesmo que as novas fontes sejam térmicas.

Nos países industrializados a adoção da nova tecnologia é desvantajosa, pois a energia para acionar carros elétricos teria que vir de outras fontes mais caras e poluentes, algumas delas, termoelétrica a vapor, inclusive nucleares que utilizam caldeira, de baixíssimo rendimento, verdadeira “reminiscência arqueológicas” da era industrial. Alem de não resolver o problema de emissão em âmbito global, provavelmente perderiam dinheiro. Se o combustível utilizado no motor a combustão fosse convertido em eletricidade em usina termoelétrica a gás de alto rendimento, ainda assim o custo do Kwhora gerado seria superior ao do motor a explosão..
A maioria dos países industrializados ainda está na fase inicial da adição de etanol à gasolina. Continuam grandes emissores globais, cuja dependência de petróleo reluta em substituir por outra: a dependência dos combustíveis alternativos.
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Nos países em que hidroelétricas predominam, como o Brasil, a tecnologia é mais eficiente e a energia tem custo menor. Alem da redução das emissões de âmbito global e local, pode ocorrer ganho econômico com a substituição. Ainda assim, mesmo que a substituição ocorra, o remanescente da frota — constituída por veículos a álcool — continua emitindo gazes poluentes em âmbito local.
Hugo da cidade do cabo verde
PS: Você toma um banho de ½ hora num chuveiro de 6000 Watts consumindo 3 Kwhora e paga uma conta de 0.45 x 3 ou 1.35 R$/banho.
Se o chuveiro fosse a gás (gasolina) pagaria 0.21 x 3 ou 0.63 R$/banho
Nota: um aparelho de chuveiro a gás custa 1/5 do mesmo chuveiro a aquecedor solar. Foi o mito da hidroeletricidade barata que perpetuou o uso dos anacrônicos chuveiros elétricos. Qual a razão de tanto encargo sobre energia que é fundamental para produção de bens básicos?

O motor de carros se comporta, termodinamicamente como miniusinas térmicas ambulantes, autônomas como a velhas locomotivas a lenha, que carrega seu próprio combustível e transforma diretamente a energia contida no combustível em energia mecânica de acionamento do veículo. Daí seu prestígio pela autonomia e potência para atender solicitações inesperadas de demanda. São ineficientes pelo processo, mas muito eficientes pelo “regime de velocidade”, acompanhando as inovações de modernas técnicas de fabricação (6000 RPM).

sábado, 5 de junho de 2010

Desassocego

DESESPERO
Tributo a Viníicios de Morais
Quem com mão de amigo chorará comigo no instante trágico?
e consolará os familiares: foi um bom homem, Deus o tenha.
Que, a boca pequena, sussurará: foi um chato, já foi tarde

Qual vulto estranho que ao transpor o muro chorará no escuro uma lágrima furtiva?
Que vai tratar de assuntos triviais, dos papéis e coisas tais?
Quem cincunspecto fará o discurso final?

Quem vai ler em diagonal a inscrição banal: eu fui o que tu és, tu serás o que sou?

Por favor comente ou complete o poema...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O_VELHO

Trecho de "Cordel Mineiro", de vitor hugo romão
O_VELHO -Aquilo, nem num eram modos de falar com gente de cidade.-Ele não era opilado nem nada, mas podia que sofresse de forgo curto: sempre afadigado, uma ansiedade constante de estar sempre fazendo as coisas. Armava mundéu pra paca e tatu, construia chiqueirinho de estranha arquitetura, heia de labirintos pra caçar os nhambus xeretas e dava tudo por um dia inteiro passado na espera de um estaleiro, girau de paca. Capivara ele matava no carreiro com armadilha de canhão. Podia que tivesse bichas que arvoroçava de vez em quando, quando comia semente de abobora. Era chegadinho num parí pra pegar peixe, entancando o rio, que terminava numa esteira de carro de boi ladeada por caniços. Raro o dia que não encontrava uma piaba ou tabarana pro almoço, o mais era peixe pequeno, curimba, campineiro e tambiú. A noitinha era a hora dos bagres e mandís, nos poções fundos dum sumidouro numa volta de rio. A traira, pescava nas vazantes ou nos remansos de rio largo. Ali, passava horas escogitando os misterios da vida. Os pensamentos avoava longe. O velho encabulado. Ali, aonde que a curva do rio Cabo Verde, barra do corgo Assunção, no corgo da bomba, terras altas do Cachapava, morejava o Rumãozinho, o seu nome dele de José Romão, mas de sobrenome incerto ou duvidoso de algum alguem saber correto como que chama o nome dele. Porcerto o nome não sabido, podendo que seje Agripino ou Afrosino, os parentes nenhuns pra dar informação de estado civil, nem certidão de pia batismal, nem um nada sobre sua pessoa dele. A bem da verdade, não importa sequer um nada. Consta que parente dos Umbelino da rancharia ou conão dos Beijo da Ponte Alta. Vizinho dum Adolfo Vilela, homem de posses, um despotismo de terras montante do rio afora. Parente duns Iquitas, uma familiagem muito grande de gente dos Figueiredo da Divisa. Tinha o Joaquim Iquita, de nome Joaquim dos Santos , o João Marcolino ou Paulino e o Simeão e o resto dumas mulher solteira, muito antigas. Não era velho nem moço: miseravel de passar mal de boca, desses que comem bastante no almoço, pra se esquecer do jantar. Nem se podia dizer que era velho de tudo: no dizer de todo mundo, uma pessoa entrada em anos, de meia idade, com muitos janeiros as costas e um ar de poucos amigos. Na feição magra, um ar de tristeza permanente, mas não reclamista da vida. Na cara magra, um papo insolente, inconfundivel, impossivel de um não não perceber o corpo estranho no primeiro relance: depois disfarça. Mas desses de bolinha, semovente, que sacode quando a pessoa proseia. Solteirão inveterado, embirrado, tirava leite dumas vaquinhas magricelas, os bezerros tambem magruços, tal e qual, do pouco leite deixado, mais por misereza do dono, um unha de fome. Do leite, fazia queijo pra vender na cidade: só que nos fins de semana, quase não aparecia, de tão sistemático. A restea, vivia reclamando das despezas: umas mingueras, constando até, que passava mal de boca. As roupas surradas e vestida sem passar a ferra de brasa, lavava num quarador com tabua de batedor num corguinho do fundo de casa perto duma mina d´agua. O sabão de pedra, preto de bola enrolada em palha de milho, ele mesmo fazia de dequadra de cinza de fogão e gordura rançosa de porco e os restos de pacuera, miudos e tripas de porco, sobrados da espremeção de toicinho. As carnes, conservava por semanas na gordura talhada, fritas e costuradas com linha. Fazia linguiça e chouriços de sangue de porco. Do leite desnatado em desnatadeira Alfa-Laval, extraia o creme para o fornecimento semanal a fabica do Bergander, das sobras, a manteiga batida em corote de madeira. O soro corria por uma bica, direto pro chiqueiro, onde chafurdavam uns poucos porcos tratados a lavagem e bosta dele próprio, de tão miseravel. Uma cordinha de gatos, bebia o soro até se fartar, os quatro pés apoiados nos dois lados da bica. De tarde apartava as vacas e depois ia pro paiol descascar milho. Fazia o fubá no moinho rustico de setilha e pedra de mó, misturarava ao soro pra tratar dos por porcos. Os porcos de mangueiro, viviam chorando de fome. Tratava com milho em espiga mesmo, sem descascar. Ele não era antipático nem nada, muito menos oferecido, tal e quanto esse povinho xereta que anda lamberetando a vida alheia, antes, uma pessoa sombria e taciturna. Nem era rastandor de mala, de que faz e acontece, mas uma pessoa sizuda; nem alcoviteiro e de mexericos de leva e traz, mas um homem recolhido e vergonhoso que preza as grandezas machas do verdadeiro capiau: homem de fala grossa e o proseado gutural e emotivo, manso e altissonante, sobretudo, que vive dentro dos preceitos de religião. Caseiro, um homem de levantar cedo, de dormir com as galinhas, não sem em antes de lavar os pés e comer leite com farinha. Mas tinha lá seus modos dele de ficar horas cismando quando sentado na masca ou num tronco de coxo. Muito sistemático mas não tinha por habito reprovar conduta dos outros nem tinha soberba ou fazia pouco causo, nem repunava das coisas: não desdenhava pra poder comprar, antes, disfarçava um otimismo com as pequenas coisas da vida:-Maravilha! tudo azul, em cima. Ali naquele ermo, aonde sabe la que Judas perdeu as botas, contava suas máguas da ocasião de amarrar cachorro com linguiça, tempo do zagaia de gancho. O velho chorava as pitangas do tempo do onça e aquilo nem num era vida de gente: vida de cão danado. Nos versos do poeta e cirurgião dentista, Beto Ornelas: Vida alheia vida feia vida cheia vida louca vida pouca vida toda vida tola vida a-toa vida boba vida porca vida torta vida morta vida amarga vida de farta vida parca amarga vida Magra vida mar de vida amar a vida Margarida De seu, tinha pouco, uns andrajos: um cachorro sarnento por companhia, passava a pão e agua: o mais forte, uma sopa de inhame, coisa sem sustancia. Carne, nem pra remedio. De galinha então, só quando um dos dois estava doente. Vivia no escuro, a luz de lamparina, umas candeia escura, cheia de picumã. Dormia com as galinhas: antes do galo cantar, já estava tirando leite, enrolado num cobertor surrado, enterradas as canelas no barro do curralzinho, até o joelho. Dali, tirava uma tarefa de cinco varas duma roça de milho tiguera, dum chão pedregoso, em antes de fazer o magro almocinho, o feijão fervendo na panela de ferro. De longe, o ruido metálico da enxada sem corte, tirando fogo nas pedras redondas. Deixava a casa escancarada, pra todo mundo ter idéia que o dono por perto: ladino que só. Companheira nenhuma pro aconchego dos ossos: dormia com uma cabrita. Mas era resistente, no cerne, o tempo não vencendo a sua magreza: jamais ficava doente de nenhum incômodo: apenas o pigarro duma bronquite crônica, resultado de longos anos do uso de pito de barro. Mas fazia presença, com seu cavanhaque de rabo de milho. Era independente, num tinha ninguem por ele, nem carecia de favor de extranho. Magro, mas impoluto, sistemático até o âmago, autoritario, quase absoluto. O que tinha pra dizer: não deixava a batata assar, não ensaiava pra dizer desaforos: falava alto pra todo mundo escutar, não tinha papas na língua. Não gostava de levar desaforos pra casa, nem de comer nada amanhecido. Não pedia a ninguem de gostar da pessoa dele: era único, impar, digno, na sua misereza dele. Seguro ao extremo, avarento: tinha dinheiro a juros. Mas apenas um homem na sua condição: integro. Serviçal ao extremo, mas do jeito dele: áspero. Pois num é que sucedeu de num levantar mais da cama dele pra tirar leite! ficou entrevado das pernas, arrastava pelos cômodos da casa, apoiado numa manguara, uma especie de cajado. As vacas, misturou tudo com os bezerros. Os porcos invadiram a dispensa, pros restos de lavage. O mato deu de invadir os terreiros, o capim principiou de nascer dentro de casa. Assim, viveu muitos anos até que chegou o dia dele: a morte o levou sem nenhum estardalhaço, como sucede a qualquer um de nós, cristãos viventes, nessa vida. O romãozinho, como era assim chamado, era desses velhos sovina, miseravel até no último: desses de guardar dinheiro no ôco do pau de barrote, as veses no santo do pau ôco. Pois não é que quando morreu, deixou um testamento escrito assim: "Entrego minh'alma à Deus, meu corpo à terra fria Os culhões pro Padre Antonio e a pica pra tia Maria." Aí, o velho foi falando a prosa dele, sem a pressa nenhuma nada, até que a historia chegou no deserto: não estava nem podendo com a gata pro rabo. Mas a sua vós dele se dissolvia como que tragada pela areia do deserto da sua juventude: a imagem de catingueiras, cactos e cascavéis. Os olhos semi-cerrados, trespassando a gente, como um imenso largato, a papada suspensa, longe no tempo, o olhar travesso, engraçado e pasmo, parado, congelada a imagem, os seus meneios de cabeça: ridículos. A pequena praça da corrutela, vazia de vivalmas. O tempo parado nos ponteiros imóveis do relogio do velho campanario. Despertou solerte, como se tivesse herdado subitamente a velhice do velho sem a sua juventude dele. Depois de uma eternidade, como fazia o Zeca Zico, no seu ar soronho, disse para ninguem: -Ó, o peso imenso desta vida de viver por rumo! Retornava ao caminho de volta, com a minuciosidade implacavel das coisas gravadas pelo destino. Disacursuado da vida, fez que sim com a cabeça e disse:-Não! Os olhos do velho, me trespassamdo com seus olhinhos de largato: só, e só no deserto, as pessoas fazem perguntas impossiveis de responder e que realmente interessam. Padecia da lembranças da juventude distante de sua antiga mocidade: dos erros, das vacilações, das tentações cedidas. Mas alimentava o espírito com as visões lúdicas daqueles tempos gostosos: -Eta pustema de vida disgramada! só lhe restava chorar a antiga mocidade, enquanto um pranto sereno fazia aflorar às pálpabras uma gota de amargura: inexoravelmente, o tempo não podia retrogir. nem das aventuras de seu tempo futuro negado. Era, em nesses descaminhos do tempo, perdido nos subterraneos da memoria, que com sábias enciclopédias, com centenares de milhões de milhares de respostas, para a falta de uma única, só e definitiva pergunta: Ó Deus! que é a vida?-Mas, com que cara e com que roupa eu vou me responder? quê que eu vou fazer? A nudez, não costuma mais afetá-lo, como nos velhos tempos de outrora: a vertigem do sonho, o prazer da lembrança não pedida, chegada de surpreza. Homens adultos e cultos, discutindo com ares judiciosos: seus passos escangalhados, trôpegos e esgalepados. Aí, ele recuou prum canto, amuado. Se encolheu num canto triste, uma cantiga de ladainha, gungunava. Ficou entoando cantigas tristes, dos tempos de outrora, não mais escutadas em o nenhum lugar, antigas, de muito que antigamente, passadas no oco tempo. Nenhum ninguem num tinha que num ia de dar ouvidos pelas prosas sonsas dum velho imprestavel, ancestrais. Alguns velhos mineiros fazem isso sempre. um recolhimento profundo, o olhar pra dentro, trespassado da lembrança toda do tempo feliz da vida. Um olhar de bondade, esperançoso. O gesto pequeno, sem exagero de rompancia nenhuma nada, maneiro de nenhuma agressividade, ar superior mas tímido, na desimportancia de enorme grandeza. Está sempre pensando na gente sua e nos seus trens. Uma imensa bondade, nos seus olhos tristes de velho. Nunca que brigou. Jamais bateu em ninguem, muito menos num passarinho que seje. Sempre bom, a prosa muito mansa, esperando a vez com paciencia. De seu, o que tem é nada: só trapos, bugigangas. Guarda só lembranças. E no entanto, seu ar é sombranceiro, majestoso até. O terninho de brim, digno e limpo, solene e aprumadinho todo todo, de chapéu. As mãos asseadas, unhas aparadas a canivete, com cuidado e lento. A nenhuma rompancia, pacífico que só: palavras boas, a presença quase que desapercebida. Gosta de contar historias e nisso era mestre.Mas fala de coisas ancestrais, eles logo acham sua prosa dele desbotada. Então ele fica apaixonado: se retira e cala, prum canto sombrio, um ermo, encostado num fundo de grota, num vazio desprovido. Recolhe-se a sua casca de caramujo. Não se mostra pra nada, nem pra o nenhum ninguem. E acaba numa vida sem brilhos, longe da cidade, um nada de aparencia: só simplidade. Alí fica como ave reclusa, esperando o tempo vencer, olhando o passado, resmoendo estomagos. Redundante, recorrente, volta e meia as coisas sempre voltando à tona. Antes era um bisca de ruim, um íngua. Depois que ficou velho amansou. Adotou uma prosa pausada, um proseado rouco, grosso e autoritario: deu pra ficar solene. O alheiamento, o autismo. eu sou de lá do sertão, por isso mesmo: eu quase não tenho amigo, eu quase que não consigo ficar na cidade sem viver contrariado sou como rês desgarrada, só, na multidão, boiada: caminhando a esmo. Ele sempre fazia isso: o recolhimento por uns dias no hospital, por ordem médica, pra recompor. O efeito dos medicamentos o distanciava do mundo. Principiou de gostar da brincadeira, começou de amiudar, passaram a tres, quatro dias, o retorno à normalidade do dia a dia, foi se tornando penoso. A perda do interesse pelo contato com as pessoas, cada vez mais mergulhado dentro de si mesmo. Os negocios, paralizou alguns. um passo a frente, dois atraz. Desmobilizou. A esclerose multipla, o gosto pelo afastamento, natural. Aquilo, um flagelo, um sanapismo. Aquele era um sertão, um lugar triste, um ermo, um fim de mundo esconso, sem fim, perdido no meio do vazio petrificado. Do que ele fica triste e disacursuado, não é com a velhice física, o entrevamento, a falta de mobilidade, quando os menores gestos ficam custosos, como levantar dum banco: por isso não sai pra fora de casa, fica só, só fica quentando fogo, em noites que não tem nunca fim. Nem com a surdez, a perda dos dentes, a careca, o mau halito, o cheiro de velho, das feridas, as recorrencias, nada disso: ..., isto até que passa. Começa até a encontrar prazer no descansar os ossos, cismar silencioso, podendo ficar isolado, só e seus pensamentos, a cabeça livre de vagar por territorios longínquos, vasculhando reservatorios profundos da lembrança. Buscar fatos antiquíssimos, de muita vangloria, uma lembrança fina de coisas gostosas da infancia distante, da remota mocidade.

Diferentes visões:

Lago de Furnas

Lago de Furnas
Pesqueiro do Areado